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20.2.04

TEMPO & FRUIÇÃO

A voragem dos dias vulgariza a experiência dos sentidos, especialmente aquela que temos sobre os sentidos. A própria expressão voragem dos dias foi já tão usada que perdeu parte do seu relevo. Mas isso é o que é realmente normal: as palavras acompanharem o mundo. No fundo, é quando mundo e palavra se não roçam que a normalidade se faz notar. Por contraste, bem entendido; é na sombra que melhor se escuta calor e luz. Falamos dos dias que passam como quem sabe que alguma coisa passa. Sentimos o tempo correr nos ossos como os surdos fazem com os sons. Mais raramente porém, acariciamos as horas vividas com as pontas dos dedos, subtilmente atentos. Escrita não falta. Sobre o intervalo, sobre a continuidade, sobre a eternidade. Conversa não falta – dói-me aqui, queria champô para carecas se faz favor, tenho que usar um pace maker?, se tu visses o que vi...

Tocar as horas com a ponta dos dedos, tactear o tempo, abraçá-lo com a pele em que se oferecem as nossas impressões digitais ao nosso próprio sentir, é algo que fica, vezes de mais, fora de alcance. Sentirmo-nos é o que é raro. Erotismo tão leve só é possível sem pressas.

Ter tempo para a fruição! Muitos, é claro, dizem que não querem: eu, sem trabalhar, morria, queixa-se o soldador à mesma vizinhança que o zunir da sua máquina acorda todas as manhãs. Como a coisa se passa de manhã, ainda ninguém talvez tenha acordado o suficiente para lembrar que as fronteiras entre o trabalho e a fruição, ao longo da história, têm assumido configurações pouco claras, às vezes até claras de mais. Mas mesmo que assim não fosse, cada exemplo é apenas exemplo – e nada obriga a segui-lo. Agências de viagens e aluguer de carros, pousadas, estalagens, hotéis, motéis, pensões, residenciais, parques de campismo, restaurantes, bares, piscinas, saunas, massagens, termas, perfumarias, cinemas, teatros, vendedores de DVD stereo e dolby surround, não parecem queixar-se. Pelo menos, por toda a parte, há sempre alguém que busca a fruição. E por toda a parte há gente que se queixa de não ter tempo ou dinheiro ou saúde ou vontade para fruir.

Alguns, talvez mais críticos, apontariam antes os sorumbáticos robôs que se arrastam ao fim-de-semana pelos corredores dos shopings, ou a velha galinhola que guincha de alegria de cada vez que imagina na montra que tal creme lhe esconde as pregas dos queixos, ou ainda aquele fedelho que berra à mãe e ordena o pai que lhe comprem o game boy, ao mesmo tempo que se diverte a sujar mais uma fralda. Sim, é verdade, um pouco de crítica não faz mal. O propósito é que está noutro lado – que se ande como cães atrás do próprio rabo ou não, tanto faz; que se substitua pelos objectos as sensações, também não; e que progressivamente se substituam os objectos por um nada cada vez mais nada, ainda menos. Aquilo que parece que não se pode contradizer, é que há qualquer coisa nos humanos que os leva a aproveitarem aquilo que os rodeia em proveito do seu próprio prazer. Que isso não nos distinga de grande parte dos outros animais, pouco importa, pois, continuamos a não poder negá-lo em nós mesmos. E talvez até seja verdade que uns sejam menos dotados do que outros. O bruto gosta de ser bruto – se não, já não era bruto - e desconfia do sensível que, muitas vezes, talvez preferisse antes ser bruto. Dizer que o bruto tem o prazer mais próximo de si é, então, explicar que o sensível está mais perto do prazer. O bruto anima-se com qualquer cepa, o sensível ilumina-se por trás do melhor vinho. Um consola-se com a revista pornográfica, ao outro agrada o bailado. O tablóide serve muito bem para o primeiro, o segundo procura a verdade na galeria de arte. Um e outro relacionam-se, portanto, de forma íntima com o mundo. Que, na intimidade, um prefira partir nozes com a cabeça e outro a cabeça com metafísica, não impede que um e outro descubram dentro de si o mundo. E nele se possam rever. Embora não encontrar.

Os obstáculos são vários. Amplificadores, aceleradores, aspiradores, controladores, armadores, recicladores, mostradores-despertadores. Tornam instantes em gigantes, amantes em fulminantes, marquesas em mulheres de limpezas, canários em horários, viagens em paisagens, odores em amores maçadores e descanso em ranço. E tanto no caso do bruto como no do sensível, tais escolhos encandeiam tanto os olhos que é mais possível, por assim dizer, deixar de os ver.

Sentir os sentidos, perscrutar o foro íntimo e sem público da arte da nossa ligação ao mundo, sem pressas admirar o admirar, cheirar o próprio nariz, gozar com o prazer, transgredir a descontinuidade de si a si próprio, abraçar a plenitude de todo um fundo que se recusa a deixar vir cada moisés de nós a nós, eis o que se não pode desejar e, apesar disso, aquilo por que mais se anseia. Sem se vulgarizar.

FM

7.2.04

APRESENTAÇÃO

«Sinestesias» não é um Blog.
«Sinestesias» é uma comunidade de lugares.
Lugares abertos que dão uns sobre os outros.

Cada lugar revela a fruição de um ou mais sentidos.
Cada sentido dá sobre uma paisagem ou uma arte.
Cada fruição pode ir dar ao pensamento.

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